Este blog foi oferecido a Santo António, perante o seu altar, na sua santa casa de Lisboa, para sua honra e glória nos Céus e na Terra

(Por irmã franciscana da OFS Santo António de Lisboa à Sé)


Transmissão em directo da igreja de Santo António de Lisboa à Sé

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30/05/16

Simpósio Internacional Antoniano - Exulta Lusitania Felix

Santo António
70 Anos - Doutor da Igreja

Este ano celebram-se os 70 anos da proclamação de Santo António Doutor da Igreja. Este título honorífico foi atribuído pelo Papa Pio XII e veio confirmar a tradição, mantida ao longo dos séculos pelos franciscanos italianos e portugueses, que sempre prestaram a Santo António, o culto dos doutores da Igreja.

Assinalando esta efeméride, a Câmara Municipal de Lisboa, através do Museu de Lisboa - Santo António, e o Centro Cultural Franciscano, em colaboração com a revista Itinerarium e o CEFI - Centro de Filosofia da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, organizam o Simpósio Internacional Antoniano Exulta Lusitânia Felix. Pretende-se destacar a importância de Lisboa e Coimbra na formação teológica e intelectual de Santo António, revelada posteriormente na sua pregação em Itália e França, e que chegou até aos nossos dias. 
Com a participação de especialistas de Lisboa, Porto, Pádua e Goiânia este simpósio dá a conhecer a vertente erudita de Santo António, um outro olhar sobre o santo casamenteiro e dos objetos perdidos, o santo popular festejado todos os anos nas festas da cidade de Lisboa.

4 de junho, 10h - 19h | Centro Cultural Franciscano (Lisboa)

Entrada livre

Mais informações em:
http://www.museudelisboa.pt/




Carta Apostólica de Pio XII, 16 de Janeiro de 1946

proclama Santo António de Lisboa, Doutor da Igreja



Exulta Lusitania Felix.

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Pio XII Para perpétua memória
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Exulta, ó feliz Lusitânia; regozija-te, feliz Pádua, porque a terra e o céu vos deram um homem que, qual astro luminoso, não menos brilhante pela santidade da vida e pela insigne fama dos milagres do que pelo esplendor da doutrina, iluminou e continua a iluminar todo o universo!
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António nasceu em Lisboa, a primeira cidade de Portugal, de pais cristãos, ilustres por virtude e sangue. Pode deduzir-se de muitos e certos indícios que desde os primeiros alvores da vida, foi abundantemente enriquecido pela mão do Omnipotente com os tesouros da inocência e da sabedoria.
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Ainda muito jovem, tendo vestido o hábito monástico entre os Cónegos Regulares de Santo Agostinho, durante onze anos dedicou-se com o maior empenho a enriquecer a sua alma com as virtudes religiosas e o seu espírito com a sã doutrina. Elevado depois à dignidade sacerdotal por graça do céu, enquanto vai aspirando à vida mais perfeita, os cinco Protomártires Franciscanos em missão de Marrocos consagram com seu sangue os princípios da Religião Seráfica.
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E António, cheio de entusiasmo por triunfo tão glorioso da fé cristã, sentindo-se inflamado de vivíssimo desejo do martírio, (vestido o hábito franciscano), dirigiu-se contente numa nau a Marrocos e chegou felizmente às praias africanas.
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Vítima, no entanto, pouco depois, de grave enfermidade, viu-se obrigado a retomar a nau para voltar à pátria. Desencadeando-se então formidável tempestade, e sendo levado para uma e outra parte nas asas do vento e das ondas, finalmente, por disposição divina, é arrojado ao mais remoto extremo da costa italiana. Dali, desconhecendo o lugar e as pessoas, pensou em dirigir-se à cidade de Assis, onde então se celebrava o Capítulo Geral da Ordem dos Menores.
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Chegado ali, teve a dita de ver e conhecer o Seráfico Pai São Francisco, cujo dulcíssimo aspecto o encheu de consolação e o incendiou de novo ardor seráfico. Tendo-se divulgado mais tarde a fama da celestial doutrina de António, o mesmo Seráfico Patriarca, ao tomar dela conhecimento, confiou-lhe o ofício de ensinar Teologia aos seus frades, mandano-lhe este suavíssimo diploma: “A Frei António, meu bispo, Frei Francisco deseja saúde.
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Apraz-me que ensines aos frades a sagrada Teologia, contanto que neste estudo não extingas o espírito da santa oração e devoção, como na Regra se prescreve”.
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António cumpriu fielmente o ofício do magistério, e deve considerar-se o primeiro professor da Ordem Franciscana. Ensinou primeiro em Bolonha, então primeira sede dos estudos; depois em Tolosa e, finalmente, em Montpellier, onde igualmente floresciam os estudos.
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António ensinou a seus irmãos, recolhendo frutos abundantíssimos e, como lhe ordenara o Seráfico Patriarca, não deixou esmorecer o espírito da oração, antes o Santo de Pádua procurou instruir os seus discípulos não só com o magistério da palavra, mas ainda muito mais com o exemplo duma vida santíssima, conservando e defendendo especialmente o branco lírio da pureza virginal.
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E Deus não deixou de lhe manifestar várias vezes quanto foi estimado pelo Cordeiro Jesus Cristo este amor que tinha à pureza. E fetivamente, enquanto Antônio estava rezando solitário na sua cela eremítica, todo absorto com o espírito em Deus e com os olhos voltados para o céu, eis que, de repente, num raio de luz lhe aparece o Divino Menino Jesus, cingindo-se ao colo do jovem franciscano, e com os seus bracinhos cumula de carícias o nosso Santo que, anjo em carne humana, arrebatado em suavíssimo êxtase, vai pascendo entre os lírios’ (Cant 2,16) junto com os anjos e com o Cordeiro Divino.
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Os autores coevos dão testemunho da muita luz que brilhou na doutrina de Antônio, aliada da pregação da palavra divina, e com eles os autores mais recentes que unanimemente celebram com altos louvores a sua sabedoria e exaltam até ao céu a sua robusta eloquência.
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Quem atentamente percorrer os “Sermões” do paduano, descobrirá em Antônio o exegeta peritíssimo na interpretação das Sagradas Escrituras e o teólogo exímio na definição das verdades dogmáticas, bem como o insigne doutor e mestre em tratar as questões de ascética e de mística – tudo o que, como tesouro da arte divina da palavra, pode prestar não pouco auxílio, especialmente aos pregadores do Evangelho, pois constitui rica mina de onde os oradores sacros podem extrair as provas, os argumentos oportunos para defender a verdade, impugnar os erros, combater as heresias e reconduzir ao recto caminho.
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Ademais, como António costumava confirmar as suas palavras com passos e sentenças do Evangelho, com pleno direito merece o título de “Doutor Evangélico”. De fato, de seus escritos, como de fonte perene de água límpida, não poucos Doutores e Teólogos e oradores sacros têm extraído, e podem continuar a extrair, a sã doutrina, precisamente porque vêem em António o mestre e o doutor da Santa Mãe Igreja.
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Sisto IV, na sua Carta Apostólica Immensa, de 12 de março de 1472, escreve o seguinte: “O bem-aventurado Antônio de Pádua, como astro luminoso que surge do alto, com as excelentes prerrogativas dos seus méritos, com a profunda sabedoria e doutrina das coisas santas e com a sua fervorosíssima pregação, ilustrou, adornou e consolidou a nossa fé ortodoxa e a Igreja católica”.
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Igualmente Sixto V, na sua Bula Apostólica de 14 de janeiro de 1486, deixou escrito: “O bem-aventurado Antônio de Lisboa foi homem de exímia santidade…, e cheio também de sabedoria divina”.
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Além disso, o nosso imediato predecessor Pio XI, de feliz memória, na sua Carta Apostólica Antoníana Sollemnia, publicada em l de março de 1931 por ocasião do sétimo centenário da morte do santo e dirigida ao Exmo. Sr. D. Elias da Costa, então Bispo de Pádua e agora Cardeal da Santa Igreja Romana e Arcebispo de Florença, celebrou a divina sabedoria com que este apóstolo franciscano se dedicou a restaurar a santidade e a integridade do Evangelho.
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Apraz-nos também recordar da mencionada carta do nosso predecessor as seguintes palavras: “O taumaturgo de Pádua levou à sociedade do seu proceloso tempo, contaminada por maus costumes, os esplendores da sua sabedoria cristã e o suave perfume das suas virtudes… O vigor do seu apostolado manifestou-se de modo especial na Itália. Foi este o campo das suas extraordinárias fadigas. Com isto, porém, não se quer excluir outras muitas regiões da França, porque António, sem distinção de raças ou de nações, a todos abençoava no âmbito da sua actividade apostólica: portugueses, africanos, italianos e franceses, a todos, enfim, a quem reconhecesse necessitados do ensinamento católico. Combateu depois com tal ardor e com tão feliz êxito contra os hereges, isto é, contra os Albigenses, Cátaros e Patarenos, na época enfurecidos quase por toda a parte a tentarem extinguir no ânimo dos fiéis a luz da verdadeira fé, que foi chamado com razão “martelo dos hereges”.
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Nem se pode calar aqui, pelo peso e importância que representa, o sumo elogio que Gregório IX tributou ao Paduano, depois de ouvir a pregação de Antônio e comprovar o seu admirável viver, chamando-o “Arca do Testamento” e “Arsenal das Sagradas Escrituras”.
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É igualmente mui digno de memória que, a 30 de maio de 1232, onze meses apenas depois da sua morte, o taumaturgo de Pádua seja inscrito no Catálogo dos Santos, e que, terminado o solene rito da canonização, o mesmo Gregório IX, segundo contam, tivesse entoado em voz alta, em honra do novo Santo, a antífona própria dos Doutores da Igreja: Ó grande Doutor, luz da Santa Igreja, Bem-aventurado António, amante da lei divina, rogai por nós ao Filho de Deus!
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Foi este precisamente o motivo por que desde o primeiro momento se começou a tributar na sagrada liturgia a Santo António o culto próprio dos Doutores da Igreja, e no missal, “segundo o costume da Cúria Romana”, se pôs em sua honra a missa dos Doutores. Esta missa, mesmo depois da correcção do calendário, introduzida pelo Pontífice São Pio V em 1570, nunca deixou de se usar até nossos dias em todas as famílias franciscanas e nos cleros das dioceses de Pádua, de Portugal e do Brasil.
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Pela mesma razão de tudo quanto até agora temos dito, logo depois da canonização de António, se impôs o costume de apresentar à veneração do povo cristão, na pintura e na escultura, a imagem do grande apóstolo franciscano, levando em uma das mãos ou perto um livro aberto, índice da sua sabedoria e da sua doutrina, e tendo na outra uma chama, símbolo do ardor da sua fé.
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Por isso, a ninguém deve admirar que não somente toda a Ordem franciscana, em especial por ocasião dos seus Capítulos Gerais, mas também muitos ilustres personagens de todas as classes e condições tenham exprimido muitas vezes o vivo desejo de ver confirmado e estendido a toda a Igreja o culto de Doutor, desde há séculos tributado ao Taumaturgo de Pádua.
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Estes desejos intensificados principalmente por ocasião do sétimo centenário da morte de Santo António, em vista também das honras extraordinárias a ele tributadas, a Ordem dos Frades Menores, primeiro ao nosso imediato predecessor Pio XI e recentemente também a Nós, apresentou súplicas ardentes para que nos dignássemos contar a António entre os Santos Doutores da Igreja.
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E como para exprimir o mesmo desejo concorre também o sufrágio tanto de muitos Cardeais da Santa Igreja Romana, de Arcebispos e Bispos, de Prelados, Ordens e Congregações religiosas, como de outras doutíssimas personagens eclesiásticas e seculares e, finalmente, de mestres de Universidades, instituições e associações, julgamos oportuno confiar ao exame da Sagrada Congregação dos Ritos assunto de tanta importância.
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Esta Sagrada Congregação, mostrando-se, como costuma, disposta a seguir as Nossas ordens, elegeu uma Comissão especial e oficial, para que fizesse exame cuidadoso da proposta. Pedido, pois, e obtido em separado e depois dado à estampa o voto de cada um dos comissionados, não faltava mais que interrogar os membros da Sagrada Congregação sobre se, dadas as três condições que o Nosso predecessor Bento XIV requer no Doutor da Igreja universal, isto é, santidade insigne, eminente doutrina celeste e declaração pontifícia, julgava que se podia declarar Santo António Doutor da Igreja universal.
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Na sessão ordinária celebrada no Vaticano a 12 de junho de 1945, os Eminentíssimos Cardeais encarregados dos assuntos da Sagrada Congregação dos Ritos, depois que o Nosso amado filho Rafael Carlos Rossi, Cardeal-Presbítero, Secretário da Sagrada Congregação Consistorial e relator desta causa, fez sobre ela o devido relatório, e depois de ter ouvido o parecer do Nosso amado filho Salvador Natucci, Promotor Geral da Fé, deram o seu próprio assentimento.
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Estando assim as coisas, Nós, por Nossa espontânea e boa vontade, secundando o desejo de todos os Franciscanos e de todos os demais citados, pelo teor da presente carta, de ciência certa e com madura deliberação e com a plenitude do poder apostólico, constituímos e declaramos a Santo António de Pádua, Confessor, Doutor universal da Igreja, sem que possam obstar as Constituições e Ordenações Apostólicas e qualquer outra coisa em contrário. E isto o estabelecemos, decretando que a presente carta deva ser e permanecer sempre firme, válida e eficaz, e surta e obtenha o seu pleno e inteiro efeito, que assim, e não de outra maneira se deva julgar e definir; como também, a partir deste momento, declaramos inválido e nulo tudo quanto porventura intente contra as preditas disposições qualquer pessoa ou autoridade por conhecimento ou por ignorância.
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Dada em Roma, junto de São Pedro, sob o anel do Pescador, no dia 16 de janeiro, festa dos Protomártires Franciscanos, no ano de 1946, sétimo do nosso Pontificado.”


Tradução para português consultável em:  
https://instavrareomniainchristo.wordpress.com/2013/01/16/carta-apostolica-exulta-lusitania-felix-de-pio-xii-proclama-santo-antonio-doutor-da-igreja/




Pius PP. XII (2.III.1939 - 9.X.1958)
PIUS PP. XII
LITTERAE APOSTOLICAE
EXULTA, LUSITANIA FELIX*
SANCTUS ANTONIUS PATAVINUS, CONFESSOR,
ECCLESIAE UNIVERSALIS DOCTOR DECLARATUR

Ad perpetuam rei memoriam. — Exulta, Lusitania felix; o felix Padua, gaude: tantum enim genuistis terrae caeloque, haud imparem micanti sideri, virum, qui non solum sanctitudine vitae miraculorumque inclyta fama, sed etiam doctrinae caelestis effuso splendore coruscans, orbem universum illuminavit, et adhuc fulgentissima luce collustrat. A christianis parentibus, nobilique genere claris, Ulissipone, civitate Lusitaniae principe, ortum, innocentiae atque sapientiae seminibus a Deo omnipotenti fuisse donatum abunde, a primo propemodum eius diluculo vitae ex pluribus indubiisque signis facile conici potuit. Adulescentulus adhuc, apud Canonicos Regulares Sancti Augustini indutus humili sago, undecim per annos religiosis virtutibus, animum instruere, mentemque caelestis doctrinae thesauris ditare sategit. Sacerdotio deinceps, aeterni Numinis gratia, feliciter auctus, dum perfectioris vitae rationem aucupatur, Protomartyres Fratres Minores quinque sodales, in sacris Marrochii expeditionibus, roseas Seraphici Ordinis auroras tinxerunt sanguine suo. Quo gavisus fidei christianae glorioso triumpho, ardentissimo Antonius martyrii exarsit amore, et, navi profectus gaudens Marrochium versus, longinquas Africae felix attigit oras. Sed paulo post gravi morbo correptus, iterum navim ascendit in patriam reversurus, sed tempestate saevissima maris oborta, ventorum vi hinc inde iactatus in undis, compulsus ad Italiae, sic disponente Deo, extrema littora fuit. Illic autem ignotus cum omnibus esset, nec quemquam agnosceret ipse, assisiatem urbem petere cogitavit, in quam complures nuper convenerant sui Ordinis sodales atque magistri. Quo cum prevenisset, Franciscum Patrem summa laetitia agnovit, cuius dulcis aspectus tali tantaque eum suavitate perfudit ut animum eius seraphici spiritus ardentissimo inflammaverit aestu. Cum vero doctrinae caelestis Antonii, iam longe lateque fama percrebuerit, Seraphicus Patriarcha, de ea certior factus, Antonio docendi Fratres munus committere voluit, verbis usus, in scribendo, suavissimis illis: «Antonio Episcopo meo, Frater Franciscus salutem. Placet mihi quod sacram Theologiam legas Fratribus, dummodo inter liuiusmndi studium sanctae orationis et devotionis spiritum non extinguas, sicut Regula continetur ». Hoc magisterii offcium adamussim explevit Antonius, qui Lectorum omnium exstitit seraphico in Ordine primus. Bononiae in urbe docuit, studiorum principe sede; dein Tolosae, postremo Monte Pessulano; harum utraque studiorum clarissima in urbe. Edocuit Fratres Antonius, fructusque collegit uberrimos, neque oratio deferbuit, prout Seraphicus Patriarcha praeceperat ei. Quin etiam non verbi magisterio solum, sed exemplo quoque sanctissimae vitae, suos Patavinus instituendos curavit alumnos, puritatis praesertim candidissimum tuitus florem. Quantum vero carum id Immaculato fuerit Agno, haud omisit pluries nostro patefacere Deus. Frequenter enim dum solus in sua tacita cella, stat, orans, Antonius, dulciter in caelo oculis animoque defixus, en subito Iesus Infans, fulgentissimo radians lumine, collum Franciscalis iuvenis tenellis amplectitur ulnis, ac, leniter arridens, puerilibus blanditiis cumulat Sanctum, qui, abstractus a sensibus, et Angelus ex homine factus, cum Angelis et cum Agno, nunc « pascitur inter lilia » (Cant., II, 16). Quantam autem lucem Antonii doctrina diffuderit, haud aliter quam verbi divini praeconium, aequales recentioresque uno testantes assensu, sapientiam eius amplissimis ornant laudibus et sacram dicendi vim ad sidera extollunt. Si quis vero Patavini « Sermones » attente perpenderit, Sacrorum voluminum peritissimus Antonius apparebit; in perscrutandis dogmatibus theologus eximius; in asceticis quoque tractandis ac mysticis rebus insignis doctor atque magister. Quae omnia, quasi thesaurus quidam artis divinae dicendi, haud exiguam opem, praesertim Evangelii praeconibus, suppeditare valent; ditissimumque quoddam veluti aerarium constituunt, e quo potissimum sacri oratores, ad veritatem tutandam, ad propulsandos errores, ad haereses refellendas, ad perditorum hominum animos in semitam rectam revocandps, haurire abunde argumenta validissima queunt. Quoniam vero Antonius frequentissime usus est testibus sententiisque ex Evangelio depromptis, iure meritoque « Doctoris Evangelici » nomine dignus apparet. Ex hoc nimirum, quasi profluentis aquae fonte perenni, haud pauci Doctores Theologi et verbi divini praecones iugiter hauserunt hodieque largiter hauriunt, quippe cum Antonium magistrum existiment, eumque habeant Sanctae Ecclesiae Doctorem. Quo quidem in proferendo iudicio, ipsi Romani Pontifices auctores auspicesque fuere, ac suo ipsorum exemplo antecesserunt. Etenim Xistus IV, in Litteris Apostolicis Immensa, die XII mensis Martii, anno MCCCCLXXII datis, haec scriptis tradidit suis :« Beatus Antonius de Padua, veluti oriens ex alto, splendidissimum sidus effulsit, qui, suis amplissimis meritorum virtutumque praerogativis, profunda divinarum rerum sapientia e:t doctrina ac ferventissimis praedicationibus orthodoxam fidem nostram catholicamque Ecclesiam illustravit, ornavit, stabilivit ». Itidem Xistus V in Litteris Apostolicis sub plumbo datis die XIV mensis Ianuarii anno MDLXXXVI, ita scripsit : « Beatus Antonius Ulyssiponensis, eximiae sanctitatis vir fuit . . ., divina praeterea imbutus sapientia ». Proximus autem Decessor Noster, Pius Papa XI, rec. mem., in Epistola Apostolica Antoniana sollemnia septimo exeunte saeculo a felici B. Antonii transitu die I mensis Martii, anno MDCCCCXXXI data, ad Excmuma. MDCCCCXLVI, Patavinum Episcopum, nunc S. R. E. Cardinalem Florentinorum Archiepiscopum, divinam extollit sapientiam illam, qua, praeditus abunde, magnus hic Franciscalis Apostolus, integritatem Evangelii sanctitatemque instaurare contendit. Sed ex Epistola eadem Decessoris Nostri aptissima haec renovare verba iuvabit : Thaumaturgus Patavinus procellosam aetatem suam, profligatis passim moribus infectam, christiana collustravit sapientia ac veluti suae virtutis suavitate perfudit . . . (In Italia) potissimum apostolica eius vis ac navitas inclaruit; hic impensissimi ab eo exantlati labores; at in Galliae etiam provinciis bene multis, quandoquidem omnes Antonius, Lusitanos nempe suos, Afros, Italos, Gallos, quotquot denique catholica veritate indigere intellexisset, nullo habito gentis nationisque discrimine actuoso studio suo complectebatur. In haereticos autem, Albigenses scilicet, Catharos et Patarenos, eo tempore paene ubique furentes ac germanae fidei lumen in christifidelium animis restinguere conantes, tam strenue feliciterque decertavit, ut «haereticorum malleus » iure merito nuncuparetur ». Nec praetereunda, quin etiam maximi habenda est ponderis atque momenti, laus summa quam Gregorius PP. IX, qui concionantem audierat Antonium eiusque admirabilem conversationem expertus fuerat, Patavino tribuere voluit, «Arcam Testamenti » et « Sacrarum Scripturarum scrinium » illum appellans. Memoratu pariter dignissimum esse videtur, quod, die ipsa XXX mensis Maii anno MCCXXXII, qua Thaumaturgus Patavinus cooptatus in Sanctorum Caelitum numerum fuit, mensibus vix undecim e beato transitu emensis, Antonii Canonizatione sollēmni Pontificali ritu peracta, Gregorium Antiphonam Sanctorum Doctorum Ecclesiae propriam elata voce canendo recitasse tradunt: «O doctor optime, Ecclesiae Sanctae lumen, beate Antoni divinae legis amator, deprecare pro nobis Filium Dei ». Ex quo factum est ut vel ab initio in sacra Liturgia cultus Sanctorum Doctorum Ecclesiae proprius Beato Antonio tribui coeptus sit, inserta in eius honorem Missa de Doctoribus in Missali « secundum consuetudinem Romanae Curiae ». Quae porro Missa, etiam post emendationem anno MDLXX a Sancto Pio V in Kalendario peractam, ad nostra usque tempora apud Franciscales Familias universas, atque Patavinae dioeceseos nec non Lusitanae ac Brasiliensis ditionum apud clerum utrumque, adhiberi haud destitit unquam. Factum praeterea est, ex iis quae reseravimus ante, ut, vixdum Sanctorum Caelitum honoribus Antonio decretis, ita pingi sculpive eius imagines coeperint, ut eaedem Franciscalem magnum Apostolum Christifidelium pietati excolendum proponerent, altera manu, vel prope, librum habentem apertum, sapientiae doctrinaeque indicem, flammam altera, fidei ardoris symbolum, manu tenentem. Nihil mirum igitur si complures, nedum ex Seraphico Ordine qui in suis conventibus generalibus pluries vota deprompsit ut Doctoris cultus, Patavino Thaumaturgo per saecula tributus, confirmaretur et ad universam Ecclesiam extenderetur, sed ex omnibus coetibus viri clarissimi ardentissima haec desideria sua detegere non dubitaverint. Quae vota cum, septingentesimo vertente anno a beato Antonii transitu eidemque caelestibus decretis honoribus quam maxime adaucta sint, Franciscalium Minorum Ordo proximo Decessori Nostro rec. mem. Pio PP. XI, nuperrime vero etiam Nobismet Ipsis enixas postulationes adhibuit ut in numerum Sanctorum Ecclesiae Doctorum Antonium rite referre velimus. Cum praeterea huiusmodi vota tum S. R. E. Purpurati Patres, tum Archiepiscopi atque Episcopi quam plurimi, nec non Re1igiosorum Ordinum seu Congregationum Praelati aliique doctissimi viri, sive e clero sive e popularibus, sive, denique, e Studiorum Universitatibus atque Institutis Coetibusque, suis ipsorum suffragiis auxerint et cumulaverint, Nos Romanae Sacrae Ritibus tuendis Congregationi tanti momenti rem opportunum « pro voto » committere duximus. Quae quidem Sacra Congregatio mandato Nostro naviter de more obtemperans, viros ad rem accurate examinandam idoneos « ex officio » delegit. Eorundem itaque exquisitis obtentisque suffragiis separatis, atque etiam praelo impressis, illud tantum supererat, ut qui eidem Congregationi sunt praepositi rogarentur an, consideratis tribus quae post rec. mem. Decessorem Nostrum Benedictum PP. XIV in Ecclesiae universalis Doctore enumerari solent requisitis: insigni, nempe, vitae sanctitate, eminenti caelesti doctrina, nec non Summi Pontificis declaratione, procedi posse censerent ad S. Antonium Patavinum Ecclesiae universalis Doctorem declarandum. In ordinario autem conventu die xri mensis Iunii, anno MDCCCCXLV in Aedibus Vaticanis habito, Emi S. R. E. Cardinales Sacrorum Rituum Congregationi praepositi, a Dilecto Filio Nostro Rephaële Carolo S. R. E. Presbytero Cardinali Rossi, Sacrae Congregationis Consistorialis a Secretis et huius causae Ponente, debita rerum relatione facta, audito quoque dilecto filio Salvatore Natucci, Fidei Promotore Generali, consenserunt.  

Quae cum ita sint, Nos, Franciscalium omnium ceterorumque suffragatorum votis ultro libenterque concedentes, praesentium Litterarum tenore, certa scientia, ac matura deliberatione Nostris, deque Apostolicae potestatis plenitudine, Sanctum Antonium Patavinum, Confessorem, Ecclesiae Universalis Doctorem constituimus, declaramus. Non obstantibus Constitutionibus atque Ordinationibus Apostolicis ceterisque in contrarium facientibus quibuslibet. Haec edicimus, decernentes praesentes Litteras firmas, validas atque efficaces semper exstare ac permanere; suosque plenos atque integros efflectus sortiri atque obtinere; sicque rite iudicandum esse ac definiendum; irritumque ex nunc et inane fieri si quidquam secus super h a quovis, auctoritate qualibet, scienter sive ignoranter attent contigerit. 

Datum Romae, apud Sanctum Petrum, sub anulo Piscatoris, die XVI mensis Ianuarii, in festo Protomartyrum Franciscalium a. MDCCCCXLVI, Pontificatus Nostri septimo. 

PIUS PP. XII

*Discorsi e Radiomessaggi di Sua Santità Pio XII, VIII,
 Ottavo anno di Pontificato, 2 marzo 1946 - 1° marzo 1947, pp. 415-420
 Tipografia Poliglotta Vaticana


Original em latim consultável em:
http://w2.vatican.va/content/pius-xii/la/apost_letters/documents/hf_p-xii_apl_19460116_antonio-di-padova.html













29/05/11

30 de Maio - Aniversário Canonização de Santo António

Santo António morre a 13 de Junho de 1231 pela tarde. 

Os milagres multiplicaram-se de imediato e, nos princípios de Julho daquele mesmo ano, começou o seu processo de canonização, um dos mais rápidos da História da Igreja.

Cumpridos todos os requisitos canónicos, o papa Gregório IX canonizou Santo António a 30 de Maio de 1232, antes de cumprir-se o primeiro aniversário da sua morte, na Catedral de Espoleto, onde se encontrava então a Curia papal.




Oração: Deus Todo Poderoso e Eterno, Tu que deste ao nosso povo, através de Santo António, um insigne pregador e intercessor poderoso, concede-nos seguir fielmente os princípios da vida cristã, para que mereçamos tê-lo como protector em todas as adversidades. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amén.

Fonte: http://www.franciscanos.org/sanantonio/sanantoni.html

08/11/10

Carta de São Francisco a Santo António

A Santo António, "Meu Bispo"

Artigo de Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM
http://www.franciscanos.org.br/santoantonio_rj/artigos/2010/02.php
Texto publicado na Revista "Grande Sinal", editada pelo Instituto Teológico Franciscano, 1995
 
Neste ano, no qual celebramos o ano jubilar do VIII Centenário de Nascimento de Santo António, desejo partilhar esta reflexão, partindo da pequena carta de São Francisco de Assis dirigida a Santo António de Pádua. Carta esta dirigida em fins de 1223 ou inícios de 1224, na qual o Poverello de Assis concede a Frei António a permissão de "ler"(= ensinar) a Sagrada Teologia aos irmãos, nos primórdios da Ordem Franciscana. Eis o teor da Carta:

Texto latino
Frati Antonio episcopo meo frater Franciscus salutem. Placet mihi quod sacram theologiam legas fratribus, dummodo inter huius studium orationis et devotionis spiritum non exstinguas, sicut in regula continetur.

Texto português
Frei Francisco a Frei António, meu bispo, saudações. Apraz-me que leias a Sagrada Teologia aos frades, contanto que dentro desse estudo não extingas o espírito da santa oração e devoção, como está contido na Regra.

Aparentemente, esta carta se apresenta sóbria e simples. No entanto, esta simplicidade aparente nos pode enganar. Pois, quanto mais nela se mergulhar, tanto mais tesouros aí se escondem. Daí, a lapidação deste pequeno diamante nem sempre é tarefa fácil.

1. OS CONCEITOS-CHAVE DA CARTA
1.1 "Fratri Antonio, episcopo meo"
Santo António aparece na história da Ordem Franciscana quase como elemento-surpresa. Ele revela de forma surpreendente seus dotes de grande pregador, fundado numa sólida preparação doutrinal, quando, em 1221, foi convidado a pregar numa ordenação sacerdotal, em Forli, na Itália. Daí em diante inicia realmente o seu oficio de pregador, confundindo os hereges (donde lhe vem o título "Martelo dos hereges"), e causando grande admiração por parte do papa Gregório IX quando este ouve uma pregação de Santo António em 1228. O Papa chama-o de "Arca do Testamento" e "Armadura da Sagrada Escritura".

Pelo facto de Santo António estar ricamente ornado pela Sagrada Escritura, por sua sólida formação teológica e doutrinal, Francisco de Assis dá-lhe um titulo inusitado chamando-o de "episcopo meo" (= meu bispo). Sabemos que Frei António jamais recebera uma mitra episcopal. Este titulo Francisco lhe dá para exprimir sua profunda veneração pelos verdadeiros teólogos e pregadores, enquanto dispensadores da Palavra de Deus. De Tomás de Celano, o primeiro Biógrafo de Francisco, podemos colher este depoimento: "Queria que os ministros da palavra se entregassem totalmente aos estudos espirituais... E afirmava: o pregador tem que haurir primeiro na oração, feita em segredo, aquilo que depois vai derramar em palavras sagradas. Tem que se afervorar primeiro por dentro, para não proferir palavras frias. Afirmava que este oficio devia ser respeitado e que todos deviam venerar os que o exercem. Dizia: eles são a vida do corpo, eles é que combatem os demônios, eles são a luz do mundo. Achava que os doutores em sagrada escritura mereciam honras ainda maiores. Certa ocasião fez escrever o seguinte como norma geral: devemos honrar e venerar todos os teólogos e os que nos administram as palavras de Deus como aqueles que nos administram espírito e vida" (2Cel 163). Esta "norma geral" encontramos no v. 13 do Testamento de São Francisco.


Portanto, este título: "episcopo meo", é antes de tudo uma expressão de louvor e elogio que Frei Francisco presta a Frei António pelo ofício específico que desempenha dentro da Ordem: o de Pregador e Teólogo. Sabemos que, na Idade Média, o ofício da pregação dogmática era um encargo reservado unicamente aos prelados (bispos) e, em alguns casos, também a determinados sacerdotes, desde que estes sacerdotes estivessem devidamente preparados e tivessem recebido uma autorização especial do bispo para esta pregação doutrinal. Nesse sentido, por Frei António preencher estes requisitos, Francisco lhe presta esta homenagem carinhosa e fraterna.


Se de um lado temos a pregação dogmática, de cunho mais doutrinal, reservada unicamente aos que recebiam tal permissão, por outro lado temos a pregação penitencial, de cunho parenético, que todos os irmãos receberam no momento da aprovação oral da primeira forma de vida apresentada ao Papa Inocêncio III, em 1209: "Ide com o Senhor, irmãos, e conforme o Senhor dignar inspirar-vos, pregai a todos a penitência" (1CeI 33).


Aquilo que Santo António agora deverá fazer ("ler a Sagrada Teologia"), servirá para que os irmãos melhor possam viver sua vida penitencial e para que, no viver esta vida, a pregação fosse eminentemente teológica.


1.2. "Placet mihi quod sacram theologiam legas fratribus"
Esta carta nos mostra um consentimento dado por Frei Francisco a Frei Antônio: "placet mihi". Este "p1acet", termo técnico usado no Direito, exprime a concordância de Francisco, seu estar de acordo, inclusive, seu agrado na decisão que toma frente à realidade nova dos estudos dentro da Ordem. Realidade esta que se manifesta na expressão "placet": uma sensação de gozo e prazer por participar dessa decisão. Assim, creio que este "apraz-me" (placet mihi) vai muito além de um simples consentimento a um caso isolado, mas pode tratar-se de um alegre e amplo consentimento do Poverello de Assis para que os irmãos, aos quais o Senhor dá a graça de estudar a Sagrada Teologia; realmente fossem santos teólogos que "administrassem espírito e vida" (Test 13).
Sem dúvida, existe agora na Ordem Franciscana uma realidade nova que vai exigir uma resposta atualizada: o "mandatum" da pregação penitencial, conferido pela Igreja em 1209, com o passar dos anos requer uma nova resposta por parte da fraternidade minorítica. A Igreja passa a exigir algo a mais dessa pregação penitencial. Por isso, para melhor poderem desempenhar o oficio da pregação dentro da Igreja, conforme prevê a Regra (cf. RB 9,1-4), se faz necessário uma preparação mais sólida.


"Legas fratribus": o verbo "legere" (= ler) tem no latim medieval o significado de ensinar. Conseqüentemente, o "legens" ou "lector" (= leitor) é aquele que ensina. Inclusive, no mundo monástico, o leitor era o mestre da formação dos monges. Também nas escolas o leitor era aquele que tinha como oficio ler e explicar a Sagrada Escritura aos alunos.


Portanto, este "placet". para que Frei António desempenhe na Ordem o oficio de "leitor", demonstra ainda a catolicidade de Francisco, isto é, o espírito de abertura e a grande sensibilidade eclesial que sempre carregou no seu coração.


"Sacram theologiam": não sei se esta era uma expressão usual. Seja como for, a Teologia. como tudo aquilo que está na esfera do divino, Francisco as cerca e reveste sacralmente: "santa Mãe do Senhor", "santas Palavras", "santa Cruz", "santos cálices", "Sagrada Teologia" etc. A Teologia não somente é sagrada pelo fato de ela ser um "discurso sobre Deus" (= teologia), mas também porque, a meu ver, aponta para um modo próprio de se fazer teologia. Assim, para o religioso, a teologia não é uma ciência especulativa, mas empenho sagrado através do qual se mergulha, de corpo e alma, no espírito do discurso divino. Os que se dedicam à Sagrada Teologia, especialmente os que por profissão religiosa já deveriam transpirar pela vida o discurso sagrado do divino, devem "afervorar-se por dentro" para poder "transmitir espírito e vida" (cf. 2Cel 163).


Olhando para uma das Admoestações de São Francisco, podemos perceber que existe um modo sagrado ("sacer") e um modo "profano" (carnal) de se fazer teologia: "A letra mata. o espírito vivifica. São mortos pela letra aqueles religiosos que cobiçam só saber palavras ... São mortos pela letra aqueles religiosos que não querem seguir o espírito da divina letra, porém só cobiçam saber palavras e interpretá-las aos outros. E são vivificados pelo espírito da divina letra os que não atribuem ao corpo toda a letra que sabem e cobiçam saber, mas pela palavra e pelo exemplo deixam-na ao Altíssimo Senhor Deus de que é todo o bem" (Adm 7).
Na seqüência da Carta a Santo António isso também vem confirmado, quando aí se pede que, nesse estudo, não se deve extinguir o "espírito da santa oração e devoção". Mesmo se o estudo da Sagrada Teologia apareça dentro da Ordem por exigências eclesiais, seja para protegê-la como também para dar aos irmãos uma sólida preparação doutrinal, a fim de melhor poderem reagir frente aos ataques dos missionários heréticos. Francisco não deixa de dar uma orientação precisa aos irmãos naquilo que consiste a verdadeira teologia: um empenho sagrado! 

1.3. "Dummodo inter huius studium"
"Dummodo" (= contanto que, desde que): Esta conjunção é extremamente importante porque se trata de uma condição para que o "placet" tenha seu peso jurídico, e o "legas" se viabilize numa prática sagrada. Portanto, é uma conjunção que liga o "placet" e o "legas" da Sagrada Teologia com a orientação de se fazer uma teologia segundo o espírito.


"Inter": (= dentro): não é apenas uma preposição que aponta para o estudo como tal ("huius studium"), mas fala de uma circunstância de tempo, ou seja, da ação do estudo no seu desenvolver pleno. Em outras palavras: sempre que se estuda a Sagrada Teologia ("huius studium"), esse estudo deverá ser feito dentro ("inter") do espírito da santa oração e devoção.


"Huius studium" (= nesse estudo): nos seus Escritos, Francisco de Assis privilegia o verbo "studere". Mas não se trata de estudar para acumular um determinado cabedal de conhecimentos. O "studere" do qual Francisco mais fala é aquele no qual se adquire a sabedoria do espírito. Como já temos visto na 7ª Admoestação, existe uma consciência de que o estudo pode ser uma tentação que fere o espírito da pobreza, principalmente quando se trata de um estudo segundo o espírito da carne (do "eu"). O "placet" que Frei Francisco dá a Frei António é para que ele, no seu ensino aos irmãos, os faça crescer, "inter huius studium", na sabedoria ("sapere" = sabor) do espírito.


1.4. "Orationis et devotionis non exstinguas spiritum" (= não extingas o espírito da oração e devoção)
O que deve mover sempre a vida do Religioso, bem como de todo Cristão, é a ação do "espírito da santa oração e devoção". Assim esta vida se plenifica na medida em que ela se abre à ação gratuita do Espírito do Senhor: "Eis o meio de reconhecer se o servo de Deus tem o Espírito do Senhor: se Deus por meio dele operar alguma boa obra, e ele não o atribuir a si, pois o seu próprio eu (= carne) é sempre inimigo de todo bem ... " (cf. Adm 12).
Verificamos aqui, no contexto desta pequena carta, a contraposição sutil que Francisco faz entre "spiritum" e "exstinguas": se por "espírito" entendermos o sopro ou o hálito vital de Deus no homem, segundo o próprio conceito bíblico, já o "extinguir" aponta para uma ação inversa. Assim, o "extinguir" não é meramente um fazer desaparecer, mas vem carregado da conotação de fazer morrer, matar, aniquilar o hálito vital. É o mesmo que dizer em grego "thánatos", que significa a extinção e o apagamento da luz da vida.
Assim, ao dizer "não extinguir o espírito da oração e devoção", trata-se de um pressuposto básico àquele que ensina e estuda a Sagrada Teologia e que, aliás, deve estar presente no religioso até antes do próprio estudo. E, se é anterior ao estudo, continua a ser uma admoestação àqueles que estudam, a fim de não caírem na tentação da carnalidade do saber teológico, pois este saber extingue e mata no religioso o discurso sapiencial das coisas divinas.


Portanto, o empenhar-se espiritualmente no estudo da Sagrada Teologia, com devoção e oração, exige o contínuo esforço para se manter vivo o sabor do espírito e, sem a posse desse espírito, não pode nem sequer acontecer a verdadeira teo-logia, e muito menos a Verdade Teológica. Pois, o "espírito da oração e devoção" é o que unge o coração do teólogo, assim como unge o coração do religioso nos mais diferentes ofícios que ele desempenha dentro da fraternidade: seja no trabalho, na oração, no estudo e na pregação. Em tudo e por tudo deve estar presente a unção vital do espírito para se poder transmitir retamente espírito e vida. 

1.5. "Sicut in Regula continetur" (= como está contido (convoca) a Regra)
Em duas passagens da Regra Bulada se admoesta sobre a necessidade de não extinguir o espírito da oração e devoção: no capítulo V, quando fala do trabalho e no capítulo X, quando diz que "os que não têm estudos não procurem adquirir, mas cuidem que, antes de tudo, devem desejar o espírito do Senhor e o seu santo modo de operar" (RB 10.8).


Qualquer oficio dentro de uma fraternidade evangélica não pode e nem deve ser executado funcionalmente. O oficio não possui um fim último em si mesmo, mas sempre é meio para se buscar e viver "o único necessário", isto é, o estar sempre na posse do "espírito do Senhor e seu santo modo de operar".
Nos textos acima, RB 5.2 e 10.8, Francisco não faz uma admoestação no sentido de se posicionar contrário ao estudo. A exortação da Regra visa advertir o religioso para não cair na avidez do saber pelo saber que mata, no estudo da teologia, o espírito do Senhor, da mesma forma como o trabalho pelo trabalho também extingue o mesmo espírito. O trabalho e o estudo, bem como qualquer outro ofício, podem se interpor entre o religioso e o Senhor, impedindo assim o exercício da caridade e da humildade e, principalmente, impossibilitando no religioso o "rezar sempre a Deus de coração puro" (RB 10,10). Em outro texto Francisco faz a mesma advertência: "removam todos os obstáculos e rejeitem todos os cuidados e solicitudes, para, com o melhor de suas forças, servir, amar, adorar e honrar, de coração reto e mente pura, o Senhor nosso Deus, pois é isto o que Ele deseja sem medida. E preparemos-lhe sempre dentro de nós uma morada permanente ... " (cf. RnB 22.23-24).
Poderíamos dizer ainda, num sentido bem amplo, que a expressão "como está contido na Regra" vai além das duas citações explícitas acima mencionadas. O estudo da Sagrada Teologia recebe o "placet" de Francisco na medida em que este estudo estiver em conformidade com a totalidade das prescrições da Regra e, principalmente, se corresponder à premissa básica da mesma enquanto convocação para se viver em conformidade com o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. RB 1.1). Assim, uma teologia vivida e orientada a partir da Verdade do Evangelho (Cristo) só pode receber de Francisco um "placet" muito generoso e alegre.


2. Um modo franciscano de se estudar a Sagrada Teologia? 
(A título de conclusão)
Esta pequena Carta a Santo António é extremamente provocativa naquilo que se refere ao estudo da Sagrada Teologia, segundo o pensamento de São Francisco de Assis. Existem, nas Fontes Franciscanas, diversas indicações preciosas que nos levam a crer que, da parte de São Francisco, não existia algum ressentimento ou aversão ao estudo como tal, desde que esse estudo favorecesse a "santidade interior do espírito" (RnB 17,12).


A própria vida penitencial, abraçada por Francisco, António e Fraternidade, significa aprender a "sabedoria do alto, que vem de Deus" (2Cel 102), e esta sabedoria não se aprende sentado em cadeiras acadêmicas! O apoderar-se da ciência, dos talentos, das sabedorias, segundo a Carta aos Fiéis, leva o homem à dura experiência da morte, "perdendo, ainda neste mundo passageiro, a alma e o corpo" (2CtF 82-85).


Francisco não despreza e muito menos coloca em níveis inferiores a ciência das coisas santas. A verdadeira inteligência não passa pelo crescer da ciência no homem, mas por um amor a Deus. O Santo de Assis se preocupa com o futuro, especialmente quando a cobiça do saber poderia levar os irmãos a uma terrível presunção: "julgar-se-iam mais fervorosos e mais inflamados no amor de Deus por causa da inteligência das Escrituras; quando, precisamente com o crescer da ciência, ficariam, por dentro, frios e vazios, e assim, não podendo regressar à sua antiga vocação, porque teriam deixado passar o tempo que lhes fora concedido para nela viverem" (LP 70). E ainda, dentro do mesmo contexto da Legenda Perusina, se diz que ele, Francisco, dedicava o maior apreço aos doutos da Ordem e outros sábios. enquanto esses nos "comunicam espírito e vida".
Esta mesma doutrina certamente Francisco não passou somente a Santo António nesta carta, mas também a encontramos na vida dos outros irmãos. E um exemplo belíssimo encontramos nos assim chamados "Ditos de Frei Egídio", onde este mestre contemplativo nos deixa esta sentença: "Não procures estudar muito para a utilidade dos outros, mas estudes e procures e empregues as coisas que sejam úteis a ti mesmo; porque, muitas vezes, queremos adquirir muita ciência para ajudar os outros, e pouca para ajudarmos a nós mesmos" (Ditos n. 13).

Assim, creio que Santo António captou muito bem e em grande profundidade a doutrina de São Francisco para que, no Studium de Bolonha, pudesse realmente transmitir aos irmãos o gosto pela Sagrada Teologia, sempre em conformidade com o "espírito da santa oração e devoção". São Francisco, com sua vida e pregação penitencial, e Santo António, com sua vida penitencial e pregação doutrinal, ambos percorreram o mundo "não em eloqüência persuasiva da sabedoria humana, mas na doutrina e na demonstração do Espírito" (1Cel 36). A vida interior de ambos se caracterizou, para usar uma expressão de São Boaventura, pela "total hospitalidade do Espírito do Senhor, sendo corretos intérpretes das Escrituras, e dóceis nos ensinamentos, a fim de conquistar a pérola preciosa de que fala o Evangelho" (LM 12. 2.14).

A Carta de São Francisco a Santo António, portanto, vai muito além de um mero consentimento. Ela não estaria representando uma decisão significativa e derradeira de Francisco sobre a questão dos estudos na Ordem? Se assim o admitirmos, esta carta estaria deixando de ser uma carta confidencial e privativa e assumiria uma legislação definitiva para toda a Ordem no que se refere ao estudo da Sagrada Teologia, bem como uma atitude espiritual frente às demais ciências que, bem cedo, começaram a fazer parte da vida dos Irmãos Menores em Bolonha, Paris, Oxford e demais centros de estudo.


15/02/10

Santo António na catequese de Bento XVI

Na audiência geral de quarta-feira, dia 10 de Fevereiro de 2010, o Papa Bento XVI falou de  Santo António.


Visione o video em português em:
 
 http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=77710









O Santo Padre falou sobre a vida de Santo António e  elogiou os seus sermões destacando das suas exortações, a que considera ser o objecto privilegiado das pregações do santo: "só uma alma que reza pode avançar na vida espiritual".
 Conhecendo bem os defeitos da natureza humana – a tendência de cair no pecado, a avareza, o orgulho, a impureza – Santo António convida-nos a pensar nas virtudes da pobreza, generosidade, humildade, obediência, castidade e pureza, buscando a verdadeira riqueza de um coração que nos faz bons e misericordiosos.
O Papa acrescentou ainda que, Santo António, dotado de grande inteligência, equilíbrio, zelo apostólico e místico, contribuiu de modo significativo para o desenvolvimento da espiritualidade franciscana, sendo um dos santos mais populares da Igreja Católica.
Bento XVI terminou esta catequese pedindo a intercessão de Santo António para este ano sacerdotal:
"Queridos amigos, possa António de Pádua, tão venerado pelos fiéis, interceder pela Igreja inteira, e sobretudo por aqueles que se dedicam à pregação; oremos ao Senhor para que nos ajude a aprender um pouco desta arte de Santo António. Os pregadores, inspirando-se no seu exemplo, tenham a preocupação de unir doutrina sólida e sã, piedade sincera, incisiva na comunicação. Neste Ano sacerdotal, rezemos para que os sacerdotes e os diáconos desempenhem com solicitude este ministério de anúncio e de actualização da Palavra de Deus aos fiéis, sobretudo através das homilias litúrgicas. Sejam elas uma apresentação eficaz da eterna beleza de Cristo, precisamente como António recomendava: "Se pregas Jesus, Ele comove os corações duros; se o invocas, alivia das tentações amargas; se o pensas, ilumina o teu coração; se o lês, sacia-te a mente" (Sermones Dominicales et Festivi III, p. 59). 
Leia a audiência integral em:
RESPONSO DE SANTO ANTÓNIO

Se milagres desejais,
recorrei a Santo António;
vereis fugir o demónio
e as tentações infernais.


Refrão:

Recupera-se o perdido,
rompe-se a dura prisão
e no auge do furacão
cede o mar embravecido.


Pela sua intercessão
foge a peste, o erro, a morte,
o fraco torna-se forte
e torna-se o enfermo são.


Refrão:

Recupera-se o perdido...


Todos os males humanos
se moderam, se retiram,
digam-no aqueles que o viram;
digam-no os paduanos.


Refrão:

Recupera-se o perdido...


Glória ao Pai, e ao Filho e ao Espírito Santo.


Refrão:

Recupera-se o perdido...


V: Rogai por nós, Bem-Aventurado Santo António.
R: Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


OREMOS

Deus eterno e omnipotente: Vós quisestes que o Vosso povo encontrasse e Santo António de Lisboa um grande pregador do Evangelho e um intercessor poderoso: concedei-nos seguir fielmente os princípios da vida cristã, para que mereçamos tê-lo como protector em todas as adversidades.

Por Jesus Cristo, Nosso Senhor.

Amen